Umbanda é acima de tudo servir

Tata Ngunzetala
Teoricamente
a defino como um portal ancestral que tem as características próprias
de acordo com o grupo que a forma.  A formação da mônada (1) e egrégora (2) espirituais
são de acordo com o grupo. Existem grupos de Umbanda que são quase uma
igreja cristã, outros quase um candomblé, outros quase uma pajelança,
outros quase um acampamento de cigano e há até mesmo grupos que parecem
mais com templos de tradições orientais como o budismo e hinduísmo por
exemplo.
Mas
a Umbanda mantém uma estrutura teológica coerente onde todas as linhas
têm o seu espaço no grande portal espiritual ancestral, e sendo o Preto
Velho e o Caboclo, por exemplo, seus maiores expoentes de ação e
manifestação do amor divino, seguindo-se das diversas linhas espirituais
de Orixás, das almas, das águas, de “esquerda” e tendo por Deus maior Nzambi,
que se manifesta na diversidade da natureza e de seus guias, sob a paz
do manto de Oxalá englobando o grande sincretismo com os Santos
Católicos.

pelo pouco acima, resumidamente escrito, dá pra se ver a capacidade de
aglutinação que a Umbanda tem. E olha que aqui nem discutimos por
exemplo a questão da Umbanda ter originado em 1908 com o médium Zélio
Fernandino de Moraes na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade –
fundada pelo Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas que, incorporado na
presença de várias pessoas, inclusive membros da Federação Espírita de
Niterói, teria dito as seguintes palavras: “Vim
para fundar a Umbanda no Brasil. Aqui, inicia-se um novo culto em que
os espíritos de pretos-velhos e os índios nativos de nossa terra poderão
trabalhar em benefício do seus irmãos encarnados, qualquer que seja a
cor, raça, credo, ou posição social. A prática da caridade, no sentido
do amor fraterno, será a característica principal desse culto.”
Claro
que este episódio só denota o início de uma certa sistematização e de
se abrir uma porta da Umbanda para outras classes sociais que também
necessitavam dos seus préstimos de caridade porém, não se pode negar a
sua base africana ou afro brasileira através do velhos africanos
encarnados ou desencanados que já mantinham vários ritos e tradições
antes desta data, sendo conhecidas por vários nomes, inclusive por
Macumba no Rio de Janeiro.
A própria palavra Umbanda é de origem Kimbundo e Umbundo que
significa curar ou magia que cura, ou título do sacerdote de cultos
nativos de Angola/Congo. Claro que várias tentativas de desafricanizar a
Umbanda já existiram, com explicações mirabolantes para a palavra
Umbanda, mas não tem como, pois tirar a origem africana da Umbanda é
querer, por preconceito negativo, dizer que para ser bom tem que passar
pelo crivo europeu ou colonizador.
A Umbanda é afro-brasileira sim!
É
diversa sim na sua capacidade de aglutinar várias tradições e fé mas,
sua natureza está pautada em Nzambi e nas suas manifestações seja por
divindades seja por ancestrais embora, em tese, na Umbanda é o espaço de
manifestação de ancestrais e antepassados, que são conhecidos por guias
de luz.
Isto
tudo foi só uma tentativa de abordar resumidamente a Umbanda
historicamente e teologicamente, mas Umbanda na prática é caridade! É
doar-se voluntariamente, seja como entidade eterna que somos mesmo
encarnados, para cuidar de alguém, seja como meio de mediar a
intervenção de irmãs e irmãos que já viveram na terra e hoje trabalham
voluntariamente também.
Não se cobra e não se vende. Umbanda é Servir Voluntariamente.
É
simplicidade. É deixar o seu corpo vibrar uma consciência missionária
que vive em outras dimensões e que não tem obrigação de falar nada nem
de adivinhar nada, muitas vezes só um passe e só ouvir e dizer: Vá com
Deus. Tenha fé. A vida segue e Deus é contigo. Só isto, muitas vezes, já
é suficiente!
É
deixar o corpo ser usado para esclarecer e magnetizar um espírito que
está equivocado nos caminhos negativos e que de outro modo não se
deixaria cuidar mas, com o choque na matéria através de um “transporte”
fica mais vulnerável à ação benfeitora dos nossos amigos iluminados se
deixam levar e serem cuidados. Ser médium de Umbanda é uma bênção.
Ser kambono de
Umbanda, cuidar dos que estão mediunizados, é doutrinar um irmão que
foi trazido para a corrente para ter oportunidade de incorporar num
médium e ouvir uma palavra de amor e perdão, firmar a corrente e doar
energia para que a gira aconteça, é defumar, é tocar um atabaque, é
cantar um ponto, é firmar uma vela, é defumar, é queimar uma pólvora.
Ser kambono de Umbanda é uma bênção.
Um
descarrego, um conselho, uma bênção, um palavra, uma cura, um amaci
(banho de folha na Umbanda) uma renovação da fé, um renovar para a vida e
para as buscas deste lado da existência. Tudo isto é uma bênção.  Tudo
isto é Umbanda. Humildade.
Não
tem entidade mais bonita que outra. Cada uma tem a luz divina em sua
coroa. Não tem linha mais pura ou menos pura. Cada linha com sua energia
e com a manipulação das energias. Não é a roupa e não é o dançar mais
ou  menos bonito que faz a Umbanda.
Umbanda
é humildade e respeito. É reconhecer cada ser como sagrado. É não
competição. É não ocupar a mente nem a língua em negativar o irmão. É
ser discreto e responsável com as informações pessoais que tem acesso
nos ritos, nos disponibilizadas pela confiança das pessoas que nos
procuram (até porque o contrário pode nos gerar, inclusive, processos
judiciais, pois a honra e a privacidade são bens invioláveis).
É
não se ocupar com feitiço, no sentido cristão ocidental da palavra. É
se ocupar com o rito que eleva a alma e o corpo, mesmo que tenhamos que
viver momentos de dores nesta existência. É nunca estar só.
É
não se achar melhor do que ninguém (até porque não somos mesmo, e a
proposta é nos libertamos das ilusões) É olhar e ter compaixão do que se
aparenta mais frágil e menos digno, ao que aparenta ser o maior
dignitário. Tudo é ilusão. Para a Umbanda todos e todas são iguais.
É
ter uma família muito além dos laços sanguíneos.  É não fazer nenhuma
ação que possa gerar dor no outro/outra. É não fazer trocas com o
sagrado. Eu vou servir por livre e espontânea vontade independente dos
acontecimentos particulares da minha vida.
É ser Luz mesmo com todas as sombras.
É SER.
É UMBANDA.
1
– Mônada – Conceito-chave na filosofia de Gottfried Wilhelm Leibniz foi
um filósofo, cientista, matemático, diplomata e bibliotecário alemão.
Leibniz. No sistema filosófico deste autor, significa substância
simples, algo “único”, “simples”. Como tal, faz parte dos compostos,
sendo ela própria sem partes e portanto, indissolúvel e indestrutível.
“Cada mônada é, no entanto, distinguível das outras, possuindo
qualidades que variam unicamente por princípio interno, visto que,
enquanto substância pura, nenhuma causa exterior pode influir no seu
interior”
 2
– Egrégora. Termo grego que designa  força espiritual gerada a partir
da soma de energias coletivas (físicas, emocionais e mentais) de duas ou
mais pessoas reunidas em grupo, assembleia ou congregação.

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