Revendo “Quanto vale ou é por Quilo?”

Revendo “Quanto vale ou é por Quilo?”i

Começo lembrando que a escravidão é um crime lesa-humanidade e o prejuízo,
então, é de todos e todas. Os sequestrados eram ditos sem humanidade e, por isto,
tratados como animais irracionais. Os sequestradores ao tratarem os seus iguais como
animais perdiam a humanidade de si mesmos e viravam “urubus” atrás da carniça.
O COVID-19, a Pandemia que ameaça todos e todas, apresenta saídas estranhas.
Uma delas é revalidar o “doar” como forma de poder. Esta frase contida em cenas do
filme “Quanto vale ou é por quilo?” gerou-se déjà vu.
Na década de 1980 e na transição para a de 1990 quando iniciamos a trabalhar
“no social”, em Pelotas, RS, montamos junto com outras mulheres negras o “Elleeko”. E
um dos objetivos que traçamos, partindo do lugar intitulado Cidade do Doce, reuniríamos
frutas que seriam descartadas por fruteiras, “doaríamos” para as mulheres pobres da
periferia e estimularíamos que, com o excedente, as mesmas fizessem doces. A idéia era,
oportunamente, iniciarmos uma Cooperativa.
Já estávamos há cerca de três meses arrecadando frutas, levando-as e dividindoas entre as participantes, quando, um dia, sobraram muitas frutas e as participantes
resolveram “doá-las” para o outro lado do bairro, considerado mais empobrecido do que
o lado em que estávamos.
Foi uma experiência muito peculiar e, de certa forma, chocante observar que
àquelas mulheres até então beneficiárias assumiram o lugar de julgamento e pretensa
superioridade no momento em que passaram a ser as doadoras para as demais mulheres
ainda mais pobres. No momento em que ocuparam o protagonismo da “doação”, de
imediato passaram a criticar a higiene das que receberiam, falar e tecer comentários
como os das ditas mais abastadas falavam delas.
Então, observei que o ato social de “doar” é também uma forma de poder e
crueldade, na medida em que além da doação que exerce estabelece essa assimetria
entre quem doa e quem recebe, quem doa costuma demandar que sejam tiradas fotos e
que a pessoa que recebe se condicione às vontade de quem doou.
A crise sanitária que resulta do COVID-19 tem como forma de combate à
disseminação da doença o Isolamento Social, que impede as pessoas de saírem à rua,
orientar o #FiqueEmCasa, fecha comércios e indústrias, as opções de lazer, as baladas e
botecos e, especialmente, resultou numa crise econômica que fez reaparecer de forma
nítida “a fome”.
As pessoas precisam de alimento. Assim como quando à época da Lei do Ventre
Livre as crianças recém-nascidas precisaram de abrigo, e quando da Lei do Sexagenário
precisaram de asilo. Ou ainda, como conta minha mãe, que tem 93 anos de idade e
vivenciou os efeitos da recessão do pós Segunda Guerra, as pessoas precisaram de
comida e se submetiam a longas filas para obterem.
Após a Lei do Ventre Livre, as pessoas de “bem” criaram instituições para
receberem crianças abandonadas; na dos Sexagenários, grandes asilos foram
constituídos; na época da Lepra, os leprosários eram verdadeiras cidades pagas pelo
estado e gestadas privadamente
Elenco tudo isso para lembrar que os pobres temos lembrança e memória do que
acontecia. Minha mãe conta da época da Varíola, em que a vigilância sanitária arrancava
dos lares todas as pessoas com qualquer sintoma semelhante à doença e depois não se
achava mais aquele ente querido.
Voltando ao filme, outra frase importante e mantenedora destas organizações é
“Não dê esmola, mas destine a verba para instituições idôneas”, que me lembra o
programa “Criança Esperança”. (Risos);
As pessoas que possuem mais ajudam as que não têm, como se o que elas
tivessem não fosse fruto do roubo das terras indígenas, do trabalho escravo africano que
gerou desigualdade e bolsões de miséria, e são as mesmas pessoas que agora gritam pelo
fim do Isolamento Social e pela lei dos que estão desempregados, que objetiva
nitidamente que estes abandonem o ócio para manter o ócio dos que tem para doar.
As empregadas devem pegar ônibus e ir limpar as casas dos que têm quartos para
ficar isolados, enquanto aquele outro ser que pode infectar a casa transita entre os
cômodos. Estes precisam lucrar e a pobre precisa se sentir livre para trabalhar e
consumir, pois consumindo os mesmos que pediram a volta do trabalho terão lucro.
Outra frase do filme “Lucro para o dono, sensação de liberdade para o escravo”
E as fotos – para provar que doou tem que tirar a foto – têm de humilhar e definir
fronteiras em época de que todos são atacados igualmente. E hora de repor a linha
abissal entre os que têm para doar e os que precisam receber.
É tempo de rever “Quanto vale ou é por Quilo?” para lembrar que a dita
democracia do direito de ir e vir neste momento é a lei capital a lei do capital
escamoteada em liberdade para poder consumir. A pena capital do ir e vir na Pandemia
é a única coisa que está sendo liberada, pois, afinal, o que mais a “rua” tem para nos dar?
Para nós negros, então, a rua foi o genocídio da juventude, o bullying, o desrespeito às
nossas autoridades tradicionais que representam a dinastia roubada na escravidão,
estupro para nossas mulheres e crianças.
Queria atenção de todos e todas para coibir toda e qualquer forma de exposição
das pessoas que são atendidas pela nossa pretensa solidariedade, assim como avaliar os
projetos de distribuição de alimentos e material de higiene quanto à exposição dos
atendidos e, por fim, do lucro de cada organização.
Fui rever o filme em função de duas ações sociais ocorridas no bairro da Glória,
em Porto Alegre.
A primeira manchete dizia de forma totalmente descontextualizada que uma
pessoa estava dando maracujá para driblar a fome, enquanto ao fundo se percebia cenas
tão fortes e tristes quanto das crianças em extrema pobreza comendo barro em locais de
desastres naturais e guerras.
A outra notícia mostrou uma determinada organização não governamental que
se apressou em buscar dentre todos aqueles pobres uma família que atendesse o
formato dito tradicional, em desprezo à uma “mãe solteira” com seus muitos filhos que,
por ter conseguido um “bico” de emprego, se atrasou e não pôde receber a doação.
Diante do atraso da senhora, a Organização se recusou a deixar a cesta básica que seria
doada para a ela com a Liderança do Bairro para que entregasse à destinatária
posteriormente, pois, a ONG apenas considerava idônea a si própria e não às demais
iniciativas e lideranças que atuavam ali.
Por isto, reafirmo que a Classe Média no afã de tentar separar-se dos pobres neste
momento resolveu assumir o papel de mover a economia, comprar nos grandes
mercados e “doar”, pois, afinal, ela considera ter poder.
i
“Quanto vale ou é por Quilo?” é um filme brasileiro de 2005, do gênero drama, dirigido por Sérgio Bianchi.
O filme faz uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da vulnerabilidade social.
ii Kota Mulanji – nome tradicional de Regina Nogueira, Médica Pediatra Intensivista e Coordenadora
Nacional do FONSANPOTMA. Kota Mulanji é iniciada no Candomblé de Tradição Bantu-Angola por
Mametu Ndandalakata, de Osasco -SP.

Por: Kota Mulanji Mona Kelembeketaii

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