Fonsanpotma lança manifesto contra o racismo

 Diante das crises enfrentadas pelo país, o Fonsanpotma, por meio da sua direção nacional, lança manifesto em defesa dos direitos e interesses dos povos tradicionais de matriz africana, considerando a necessidade de enfrentamento ante o racismo que se propaga em todo o território nacional. Íntegra abaixo:

 

 

FÓRUM NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL DOS POVOS
TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA – FONSANPOTMA
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MAIL: FONSANPOTMA@GMAIL.COM
WWW.TRADICAOAFRICANA.BLOGSPOT.COM
 CONVERGIR PARA ENFRENTAR O
RACISMO SEM DIVERGIR NA ORIGEM
Os processos de convergência evolutiva e de irradiação
adaptativa levam à formação, respectivamente, de estruturas análogas e
homólogas. Ou seja, partindo de lugares diferentes convergimos numa só luta,
combater o racismo, análogas, mas teremos de ser homólogos em relação ao
racismo.
E, ter o entendimento que, para além da população dos homens
e mulheres que sofrem pelo racismo em África e em toda a Diáspora forçada, a
desterritorialização dos valores civilizatórios compreende um genocídio.
Em 2001 em Durban, foi reconhecido “que a escravidão e o
tráfico negreiro, particularmente o tráfico transatlântico, foram crimes lesa a
humanidade, não só por causa da sua barbárie odiosa, mais também pelo tamanho,
seu caráter organizado e especialmente pela negação da identidade das vítimas”.
Segundo a Organização das Nações Unidas – ONU pode-se definir
Genocídio como crimes praticados com o objetivo de eliminação da existência
física de grupos étnicos, nacionais. A Lei Federal número 2.889/56 em seu
artigo 1º também define este tipo de crime como: “Quem, com a intenção de
destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso,
como tal…”.
Sendo assim, o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana – FONSANPOTMA (uma
organização nacional que tem por gênese o debate, a reflexão e o objetivo de
propor a preservação, a reterritorialização física, social e étnica dos valores
civilizatórios da Tradição de Matriz Africana, com ênfase na Soberania
Alimentar e o enfrentamento a insegurança alimentar pela destruição do nosso
sistema alimentar), tem como princípio a auto declaração como Povos
Tradicionais de Matriz Africana, deixando nítido que não desrespeitamos nenhuma
outra forma de denominação que tenham nos imputado ou mesmo que tenhamos nos
declarado, ao contrário garantimos que a diversidade é o princípio unificador
dos nossos ancestrais.
O mundo está em crise. O Brasil vive uma crise econômica,
política, ética e moral em que se destaca como resolução o retrocesso ao
período em que o poder político reflete apenas uma classe social, uma raça, um
gênero. Em que é negado às lutas dos trabalhadores, das mulheres, dos
diferentes gêneros, dos negros dos Povos Africanos escravizados, dos Povos
Originários Indígenas, das Comunidades Tradicionais Quilombolas e dos demais
Povos e Comunidades Tradicionais – PCT’s, dos Agricultores Familiares.
A postura da polícia é
desrespeitar a partir de um princípio lombrosiano. Apontando na teoria da
criminalidade por traços físicos e cor da pele, onde se define indivíduo por
indivíduo como suspeitos. Essa forma de compreender e ver a população
afrodescendente do país é equivocada e coloca gerações em risco enorme de
extinção! Isso porque, o genocídio da juventude negra é fato.
O FONSANPOTMA compreende a necessidade de explicitar nosso
reconhecimento pelo avanço em algumas lutas históricas ocorridas nos últimos 15
anos, e destacamos aqui o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos
Povos Tradicionais de Matriz Africana. Compreende também o risco de quem tenta
um golpe, não ao governo, mas as classes populares, aos negros, as mulheres,
aos grupos LGBT, aos indígenas, aos trabalhadores rurais, ao Nordeste e aos
Povos e Comunidades Tradicionais, de vencerem as pautas do agronegócio, da família,
da redução da maior idade penal, de continuar forçando o governo e este,
cedendo como a destruição das estruturas de defesa dos direitos das mulheres,
da igualdade racial, a não regulamentação de terras.
Agora o fato que divergimos nos impede de convergir na pauta
é a redução da nossa Tradição apenas ao sagrado. Reduzir ao terreiro, a
religião é manter o individualismo. Isso é manter a disputa pelas pessoas e não
pelo Povo. É permitir que os governos apresentem resultados acessados por
indivíduos e não pelo Povo, é permitir que sejamos folclorizados e não nos
permitir a garantia de terra/território, educação diferenciada que permita o
resgate de uma identidade geopolítica histórica referenciada numa África
pré-colonial e manter uma educação a partir da escravidão baixando a auto
estima de nossas crianças, largando as mesmas num consumismo que as escraviza,
explora e violenta.
Foi o tempo de uma África como país, de uma África só de Axé.
A África existente no Brasil é Ngunzo, Àce, Àse, Sarava. Neste século num mundo
globalizado a pauta de enfrentamento ao racismo é universal como são os Povos
Tradicionais de Matriz Africana e como toda a população negra, somos muitos, se
isto importar.
A Europa planejou a expansão de suas fronteiras comerciais,
econômicas através da invasão e do processo de escravidão e também da
universalização do processo educacional e de desenvolvimento. Um
desenvolvimento que não mede consequências à vida (seja humano, vegetal ou
preservação do ar e da água). Destruir a vida é à base de um dos projetos mais
eficazes de enriquecimento, a escravidão o extermínio de culturas o genocídio
de Povos.
Sendo assim o Genocídio compreende a morte física de
gerações, o genocídio da juventude e das mulheres negras, lei do ventre livre,
a lei da vadiagem, a perseguição policial, as brigas entre a própria
comunidade, diminuição da maioridade penal, a morte do patrimônio imaterial, a
perseguição à cultura ao sagrado, a desumanização dos povos, o não
financiamento de ações culturais, a apropriação indevida de conceitos e
princípios civilizatórios a desterritorialização do patrimônio material, a
substituição da mão de obra escrava por imigrantes europeus, a lei da terra, a
destruição de espaços habitados por população negra.
É necessário entender que a desqualificação, a desigualdade é
construída e mantém o lucro de alguns, assim como o legislativo e o executivo
através de leis e incentivos e o não reconhecimento do racismo institucional e
racismo ambiental da existência dos Povos Tradicionais de Matriz Africana ou a
guetização e restrição dos Povos ao território, ou ao culto dos seus sagrados
.
A situação é tão fora da realidade, que realmente acreditamos
que as pessoas veem a novela como realidade e os jornais como ficção. Daí
entenda porque não se comovem com a morte dos jovens, das mulheres, pois
acreditam que a corrupção iniciou agora e não com o processo de escravidão.
Hoje, portanto, nossa principal luta é por um estado realmente
democrático e com um judiciário que respeite a lei e apure todos os fatos,
independente da sigla partidária, e não uma polícia que julga, condena e
executa baseada no racismo, na discriminação e nos interesses golpistas.
Em momento de polarização política, nós, POVOS TRADICIONAIS
DE MATRIZ AFRICANA, por todas as razões citadas, clamamos aos irmãos dos Povos
e Comunidades Tradicionais – PCTs que assinem essa carta. Que reconheçam os
avanços, sabedores que são, das inúmeras guerras que estamos travando num
congresso que nos invisibiliza e uma mídia que folcloriza nossa história e
cultura.
Não vamos admitir nenhum golpe sobre nós. Não vamos
retroceder, exigimos avançar.
Brasília, 13 de março de 2016.
Executiva Nacional
FONSANPOTMA
Assinam coletivamente:

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