Da Ilha da Vergonha à comida de verdade

 

Fórum adota estratégia de
conversações, 
 amplia espaços no debate sobre povos tradicionais
e aprova
propostas na 5ª CNSAN

 

Texto: Solon Dias  
Fotos:Bruno C. Dias



A presidente do Consea, Maria Emília Pacheco, ao discursar na abertura na 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CNSAN), exaltou a os povos tradicionais de matriz africana. As lutas e conceitos defendidos pelo Fonsanpotma foram acolhidos pelos mais de dois mil delegados presentes ao encontro, que debateu a segurança alimentar com o tema “Comida de verdade no campo e na cidade”.

A coordenadora nacional do Fonsanpotma, Regina Nogueira (kota Mulanji), viu na fala de Maria Emília a reparação histórica do que foi o processo de escravidão. A presidente Dilma Rousseff citou os povos e as comunidades tradicionais, reconhecendo o povo de matriz africana como um povo tradicional. “Isso é reparar”, afirma Regina, que considera a fala da presidente equivalente a dizer que o Brasil teve uma alimentação fruto da dor, do extermínio das comunidades indígenas e da escravização do povo africano.  “Foi um genocídio material e imaterial”.
Ao fazer um balanço geral do encontro, Regina Nogueira, a kota Mulanji, destacou a aprovação das 13 propostas apresentadas pelo Fórum, reposicionando a defesa dos interesses dos povos e comunidades tradicionais no cenário nacional. A coordenadora avalia que o Fonsanpotma saiu da 5ª Conferência com o reconhecimento de suas teses e estratégias.
“Nós ficamos no mesmo hotel, ficamos unidos, nós tínhamos reuniões todas as noites. Pagamos o nosso próprio lugar para fazer as discussões. Então, tínhamos uma autonomia que vem se perdendo nos movimentos sociais. E isso também é um ganho.”
A seguir os principais trechos da entrevista de Regina Nogueira ao blogue Tradição Africana: 

MANIFESTO

O documento reconhece o sofrimento dos indígenas e do povo africano. “Esse reconhecimento é fruto dessa luta”. Para ela, ter no manifesto que a monocultura, implementada pelo agronegócio, é uma das formas de opressão desses povos, também é resultado desse trabalho. O documento admite que comida de verdade é alimento não só do ser humano, mas do planeta, o que resultou da mesma estratégia de conversações durante a Conferência.

O lema do manifesto é emblemático para o Fonsanpotma, “para comer uma comida de verdade, conheça a verdade sobre a comida”. Isso tem ligação com um dos princípios mais comuns na África, que é Ubuntu, termo que revela a consciência do indivíduo sobre sua relação com a comunidade. Ou seja, sou porque somos. Se eu não sei quem somos, se eu não reconheço quem a gente é, eu não vou ser nada. Se eu não sei o que a comida é, eu continuo não sendo nada. E isso foi fruto do Eixo 1 da conferência, que foi o que está no manifesto.

ERRADICAÇÃO DA POBREZA

O eixo 2 tinha nove subtemas. Tratavam da erradicação da pobreza, que passa pelas discussões sobre a repercussão ambiental e o padrão alimentar. Significa abordar a evolução da produção agroalimentar, as estratégias das políticas para garantir a soberania, o direito à terra e ao território, a vulnerabilização de alguns grupos sociais rurais, a questão de gênero, a questão de consumo e todas estas questões até chegar na parte internacional.

Nesse campo, 1.300 delegados aprovaram várias propostas, deste a questão, por exemplo, de garantir acesso à Declaração de Aptidão ao Pronaf (a DAP), com as características dos povos tradicionais, até a questão de criar um programa específico para que os povos tradicionais de matriz africana tenham acesso aos espaços livres para a autossustentabilidade, criação e plantio.

A proposta que trata do racismo institucional foi determinante nos debates. Na medida em que o colegiado avaliava os argumentos em defesa da proposta, os delegados vindos de todos os estados se convenciam desse reconhecimento.

Defendemos, com sucesso, que todas as relações do governo brasileiro com os países da África tenham, desde a fase de construção do projeto, o acompanhamento dos povos tradicionais de matriz africana.

COMPOSIÇÃO DO CONSEA
No eixo 3, que trazia todas as discussões sobre a composição do Consea, ficou clara a necessidade de ação do Fórum para garantir assento nos cenários de articulação, nas três esferas de governo, em que os povos tradicionais de matriz africana estejam envolvidos. Defendemos o reconhecimento das diversidades regionais das populações. Isto é fruto literalmente desta questão, que também discute o Sistema de Segurança Alimentar, o Sisan. Aprovamos o reconhecimento de que as comunidades que compõem o povo tradicional de matriz africana sejam reconhecidas como equipamentos desse sistema.

CARTA POLÍTICA
A Carta Política da Conferência incluiu, de forma inédita, os princípios defendidos pelo Fórum desde sua fundação em 2011. O documento consagra os principais pontos do eixo 3, entre eles a denúncia do racismo institucional e a necessidade de superação das manifestações de preconceito contra as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade. O Fórum influenciou fortemente na inclusão dessas matérias em favor dos povos tradicionais de matriz africana.

O mesmo se deu na definição da alimentação de verdade. Os povos tradicionais conceituam o alimento como resultante de um conjunto, composto por camponeses, agricultores familiares, indígenas e o povo tradicional de matriz africana. Todos os componentes reconhecem a importância da água, não só como recurso hídrico, mas os povos tradicionais de matriz africana a tem como algo sagrado, que precisa ser incorporado. Levamos para a Carta Política, após articulação do início ao fim da Conferência, o reconhecimento de que a terra e a água são direitos humanos.

MOÇÕES

Nas moções, a Conferência, por proposta do Fórum, repudia todo tipo de ação, nas três esferas de Poder, que vise coibir a soberania dos povos tradicionais de matriz africana em garantir seu sistema alimentar, e põe destaque na questão do abate tradicional. A moção foi aprovada.


COOPERATIVA DOS POVOS DE MATRIZ AFRICANA

As 20 pessoas do Fonsanpotma, que articulavam em nome do Fórum não estavam apenas acompanhando. Elas intervinham nas conversações e acabaram constituindo os primeiros passos da cooperativa nacional e das estaduais de consumo, produção e crédito dos povos tradicionais de matriz africana. Estabeleceram interlocução com a Caixa Econômica Federal, com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e com a Agência Nacional de Águas (ANA), que são instituições que trabalham o semiárido e a agroecologia, entre outras.

 A ILHA DA VERGONHA

A proposta 5 do Fonsanpotma teve desdobramentos extraordinários durante as conversações do Fórum. O dispositivo demonstra a importância de se estabelecer relações multilaterais com países da África. Intensificamos conversações importantíssimas com pessoas de governo e de organizações não governamentais do Senegal e do Níger. É do Senegal que surge o projeto do “Portal dos que retornam” (referência à Ilha de Gorée, a menos de um quilômetro de Dakar, a capital senegalesa). O local se notabilizou por ter sido o maior entreposto comercial de sequestrados africanos (tráfico), sendo, por isso, o maior portal de saída daqueles que foram escravizados. Gorée, também conhecida como a Ilha da Vergonha, foi apelidada pelos próprios invasores portugueses, espanhóis, ingleses e franceses com o debochado e desafiador título de “portal dos que não retornarão”, entre os séculos 15 e 19.

O Fórum vai provar que, frente a todo o processo de escravidão, os ascendentes estão vivos e que estão retornando à África, onde jovens das comunidades tradicionais da matriz vão aprender onde está o animismo, onde está a tradição. Também vão aprender que comida tem lá, sua língua materna e a língua que domina, porque jovens aqui não têm acesso a línguas como o francês e o inglês.

Após algum tempo, esses jovens virão de lá com bases iniciais pelo menos dessas duas línguas e aqui, ensinarem aos que ficaram para verem como é que foi ressignificado aquilo que eles, do Níger e do Senegal, por exemplo, têm lá. Para isso, o Fórum está acionando o Ministério das Relações Exteriores, o MDA e o MDS.

ATIVIDADES INTEGRADORAS

O Fórum integrou duas das 30 Atividades Integradoras realizadas na Conferência. A primeira discutiu A Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) específico para os povos e comunidades tradicionais. Pela primeira vez, os povos tradicionais de matriz africana, junto com os indígenas, refizeram a questão histórica do kilombo, kilombo com “k”.

Significa dizer que existe referencial de identidade. Ou seja, um kilombo que não é uma identidade pós-escravidão. É também indígena e abriga os que resistiram na terra; não se venderam ao agronegócio, mas que todos reconhecem o sofrimento, a mesma história de escravidão que se perpetuou nesses tempos na figura de agricultores familiares. Na 5ª Conferência 70 pessoas compuseram essa questão durante a atividade.

Na outra atividade, o Fonsanpotma chamou o Legislativo, representado pela deputada Érika Kokay, uma das coordenadoras da Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana e pelo deputado Padre João, da Frente Parlamentar de Segurança Alimentar. Nessa Atividade Integradora, o parlamento absorve o conceito do epistemicídio aplicado à colonização da África, uma vez que o fenômeno, de fato, constituiu roubo das ideias e daquilo que os povos tradicionais realmente são para colocar no lugar novos nomes, novas coisas e não valorizar o que foi mantido no Brasil.

REVISTA

Durante a 5ª Conferência, foi feito o lançamento da revista feita com o voluntariado. Tudo isso, representou, pela primeira vez, que há uma assessoria instalada, que não deixou o Fórum na mão, correndo atrás de seus interesses.

A prova dessa evolução também é constatada na desenvoltura de todos os integrantes do Fórum nos movimentos burocráticos necessários para a articulação, como, por exemplo, nas entregas de documentos. Foi assim, quando o Fórum, por exemplo, entregou a Moção de Repúdio no tempo certo. Quem conhece essa mecânica, sabe da importância de ter e entregar a moção pronta, propostas prontas, guardando os conceitos da instituição e que ficou autodeclarado na revista.

COMISSÃO PERMANENTE

Sinais da maturidade política do Fórum foram emitidos desde a abertura da Conferência até o encerramento. A presidente do Conselho, fez a ponte para que tivéssemos uma conversa reservada com o ex-presidente Lula, pouco antes dele entrar no auditório principal do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde mais de dois mil delegados os aguardavam. Na conversa, disse ao ex-presidente que, independentemente, do que acontecer daqui a três anos, ele tem que ser um aliado, para continuar transmitindo as questões que estão compondo a pauta e a agenda do Fonsanpotma.

É preciso dar consequência ao que está contido na Carta Política da 5ª CNSAN. Fechamos com o Consea, a Caisan, a coordenadora da Secomt, da Seppir, que estavam lá, a de encerramento.

Considero ganho muito grande a sugestão da presidente do Consea, em reunião com representantes de outros segmentos, no sentido de que o colegiado tenha comissão permanente de povos tradicionais de matriz africana. Isso porque, assim como os indígenas, os povos tradicionais de matriz africana não são um povo só. A África não é uma só, não é um país, é um continente com a sua diversidade mantida em solo brasileiro. E essa diversidade tem que ser reconhecida. Entendo que é necessário que o Fórum tenha titularidade dentro do Consea.

Em diálogo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), a Secretaria dos Povos e Comunidades Tradicionais admite que não trabalha, até hoje, com os povos tradicionais de matriz africana (a Secretaria tem apenas duas unidades de gestão do gênero: Ater indígena e Ater Quilombola). Mas ressalta que o esse segmento é o seu público alvo. Dirigentes do MDA revelaram que o Ministério está contribuindo e não prestando favores. Ao fim do diálogo, informaram que as demandas dos povos tradicionais de matriz africana fazem parte da pauta da entidade federal. Até a realização da Conferência as autoridades não haviam reconhecido isso.

LEGADO HISTÓRICO

Avalio que Fonsanpotma deixou um legado histórico. Receava não deixar para meus filhos e netos aquilo que recebi dos ancestrais. Eu tive um lugar para refazer o contínuo com África por meio do processo de iniciação, que me torna povo tradicional de matriz africana. Temo que meus netos não encontrem isso devido à desterritorialização. As terras dos povos e comunidades tradicionais estão sendo privatizadas. Não existem terras coletivas em que se possa reproduzir o modelo dos povos tradicionais de matriz africana. Saio da Conferência com a ideia de que eu posso dizer para o meu neto, com muito orgulho: a vó fez o que tinha que fazer.

 

14 comentários em “Da Ilha da Vergonha à comida de verdade

  • 19 de setembro de 2019 em 19:19
    Permalink

    canadian pharmacy meds [url=http://canadianpharmacynda.com/#]generic viagra online canadian pharmacy[/url] canadian online pharmacy
    [url=http://canadianpharmacynda.com/#]viagra online canadian pharmacy[/url]

    Resposta
  • 21 de setembro de 2019 em 05:49
    Permalink

    canadian pharmacy generic viagra [url=http://canadianpharmacynda.com/#]canadian pharmacy generic viagra[/url] generic canadian viagra
    [url=http://canadianpharmacynda.com/#]canadian pharmacy online[/url]

    Resposta
  • 8 de maio de 2020 em 18:19
    Permalink

    Howdy very cool website!! Man .. Beautiful .. Wonderful .. I’ll bookmark your web site and take the feeds additionallyKI am satisfied to seek out a lot of helpful information right here in the publish, we’d like work out extra techniques on this regard, thank you for sharing. . . . . .

    Resposta
  • 9 de maio de 2020 em 10:36
    Permalink

    amei este site. Para saber mais detalhes acesse o site e descubra mais. Todas as informações contidas são conteúdos relevantes e exclusivas. Tudo que você precisa saber está ta lá.

    Resposta
  • 9 de maio de 2020 em 11:11
    Permalink

    Adorei este site. Para saber mais detalhes acesse nosso site e descubra mais. Todas as informações contidas são informações relevantes e diferentes. Tudo que você precisa saber está está lá.

    Resposta
  • 10 de maio de 2020 em 06:54
    Permalink

    Youre so cool! I dont suppose Ive learn something like this before. So good to search out any person with some original thoughts on this subject. realy thank you for starting this up. this web site is something that is wanted on the web, somebody with a little bit originality. helpful job for bringing something new to the internet!

    Resposta
  • 11 de maio de 2020 em 17:01
    Permalink

    fantástico este conteúdo. Gostei bastante. Aproveitem e vejam este site. informações, novidades e muito mais. Não deixem de acessar para se informar mais. Obrigado a todos e até a próxima. 🙂

    Resposta
  • 11 de maio de 2020 em 17:25
    Permalink

    Este site é realmente demais. Sempre que consigo acessar eu encontro coisas incríveis Você também vai querer acessar o nosso site e descobrir mais detalhes! Conteúdo exclusivo. Venha saber mais agora! 🙂

    Resposta
  • 18 de maio de 2020 em 18:02
    Permalink

    demais este conteúdo. Gostei muito. Aproveitem e vejam este conteúdo. informações, novidades e muito mais. Não deixem de acessar para aprender mais. Obrigado a todos e até a próxima. 🙂

    Resposta
  • 19 de maio de 2020 em 16:09
    Permalink

    incrível este conteúdo. Gostei bastante. Aproveitem e vejam este conteúdo. informações, novidades e muito mais. Não deixem de acessar para saber mais. Obrigado a todos e até a próxima. 🙂

    Resposta
  • 22 de maio de 2020 em 08:38
    Permalink

    Adorei este site. Pra saber mais detalhes acesse o site e descubra mais. Todas as informações contidas são conteúdos relevantes e diferentes. Tudo que você precisa saber está está lá.

    Resposta
  • 24 de maio de 2020 em 20:31
    Permalink

    Este site é realmente fascinate. Sempre que consigo acessar eu encontro coisas boas Você também pode acessar o nosso site e saber mais detalhes! informaçõesexclusivas. Venha saber mais agora! 🙂

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *