Cozinha do sagrado à mesa de todos

 

Hoje, 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, não é difícil esbarrar em pessoas famintas. Em contrapartida o desperdício é muito grande. São milhões de toneladas de alimentos que vão para o lixo, quando milhões de pessoas passam fome. De 3 a 6 de novembro próximo, Brasília sediará a 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, promovida pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Faltam 17 dias para este encontro, que deverá trazer à capital federal mais de 2 mil pessoas de todos os cantos do país, que, desde de março último, foram mobilizadas por meio de eventos preparatórios municipais e estaduais.

Entre os participantes, estará a delegação do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma), formada por representantes da maioria das unidades da Federação. A entidade chegará com 13 propostas que defenderá na 5ª Conferência de SAN. O intuito é disseminar a importância do alimento na perspectiva dos ancestrais, que deram expressiva contribuição ao cardápio brasileiro.

Para o Fonsanpotma, água — cuja oferta está seriamente ameaçada pelos modelos de desenvolvimento econômico de exploração do solo do patrimônio ambiental  — deve ser entendida como alimento sagrado, e não só como recurso hídrico e matéria-prima do setor produtivo industrial e agropecuário. “Agua alimenta”, diz o documento-síntese das proposições do Fórum, para o qual o elemento deve ser reverenciado, assim como a terra, a grande morada de todos os seres.

A culinária dos negros — pessoas sequestradas em seus territórios originários no continente africano e submetidos à tortura da escravidão — foi um dos instrumentos de resistência. Hoje, grande parte do cardápio está associado ao sagrado dos afrodescendentes, nas suas mais diferentes formas de expressão, e tem amplo consumo à mesa dos brasileiros. A combinação de produtos vegetais e animais oferece um cardápio equilibrado, que reúne todo os ingredientes necessários ao bom funcionamento do corpo e ao bem-estar das pessoas.

Proposições defendidas pelo Fonsanpotma:

1) Compreenda-se como povos e comunidades tradicionais, as populações originárias (índios), as nômades, as ciganas, as tradicionais de matriz africana, além das comunidades quilombolas, ribeirinhas, quebradeiras de cocos e outras

2) Projetos estruturantes para o reconhecimento e garantia de terras para agrupamentos que se autodeclarem povos tradicionais de matriz africana como garantia da soberania alimentar

3) A defesa incondicional da prática tradicional de matriz africana em solo brasileiro que perpassa:

a) a produção sem sofrimento dos alimentos
b) o ritual que sacraliza os alimentos;c) o abate tradicional dos animais, que compõe nosso sistema alimentar tradicional.

4) A defesa da água, não apenas como recurso hídrico, mas como alimento e elemento sagrado;

5) Relações multilaterais com países africanos não apenas no que se refira à produção de alimentos, mas também à preservação de suas práticas tradicionais alimentares;

6) A terra e a água como direitos humanos;

7) A constituição de Documento de Aptidão Produtiva (DAP) Tradicional, que compreende poder produzir em terras coletivas dos Povos e Comunidades tendo como garantia as cooperativas e as associações de produção destes segmentos;

8) A garantia de ter os territórios dos povos tradicionais de matriz africana e as comunidades quilombolas protegidos e reconhecidos como espaço de interesse cultural, social e econômico das esferas federal, estaduais e municipais;

9) O compromisso dos entes federados na luta contra o racismo, os abusos ambientais, a intolerância religiosa e o genocídio físico e imaterial da população negra;

10) O fortalecimento do Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), com o reconhecimento dos espaços territoriais dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (terreiros), tornando-os equipamentos dada a capacidade instalada no território para produzir e comercializar alimentos para todos os seres e distribuição de alimentos para a população em geral

11) O fortalecimento dos espaços de controle social do Sisan com a inclusão, em todas as esferas, de povos e comunidades tradicionais

12) O reconhecimento de que tanto os povos tradicionais quanto as comunidades tradicionais são mantenedores da alimentação autossustentável e de qualidade para os grupos assim identificados

13) A luta e preservação do estado democrático, laico, com respeito a biodiversidade, igualdade de gênero, geracional e racial sem nenhum retrocesso nos ganhos dos direitos trabalhistas, sociais e políticos.

Comunique-se e participe: tradicaoafricana@gmail.com
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