Comida de verdade

Rosane Garcia
Durante a semana passada, Brasília recebeu mais de 2 mil pessoas, vindas de todos os cantos, para discutir e exigir políticas públicas que assegurem “comida de verdade no campo e na cidade”, tema da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, encerrada na última sexta-feira. O Centro de Convenções Ulysses Guimarães foi tomado por movimento frenético pela mistura de negros, índios, ciganos, representantes de movimentos sociais com as mais diferentes bandeiras de luta — forças vivas da sociedade empenhadas na construção de um país com mais igualdade, justiça socioeconômica e, sobretudo, com soberania desde o cultivo ao consumo de alimentos.
Alianças foram formadas e renovadas. Índios e povos tradicionais de matriz africana, vítimas dos selvagens e desumanos processos da colonização e da escravidão, restabeleceram a parceria secular em defesa do direito à territorialidade e à produção agropecuária, de acordo com a sabedoria legada pelos antepassados.
Na concepção dos povos tradicionais de matriz africana, cadeia alimentar, desde o cultivo até o consumo, não pode implicar sofrimento a nenhum ser vivo, ou seja, deve respeitar os ecossistemas e tudo que ali está abrigado, ter como base a agroecologia, na qual não há espaço ao ultraprocessamento de produtos nem aos agrotóxicos, utilizados em larga escala na agricultura comercial.
No ano passado, o Brasil foi excluído do Mapa Mundial da Fome, após reduzir em 82% o universo de famintos. Mas essa vitória, expressiva, não é suficiente. O país ainda convive com graves problemas de insegurança alimentar e nutricional, que afetam a população em todas as faixas etárias, tanto nas cidades quanto no campo. Eles se manifestam por meio da desnutrição, da obesidade e de doenças crônicas não transmissíveis associadas à alimentação.
Comida de verdade, ao contrário, é saúde. Para isso, é importante, como exigem os povos tradicionais, acesso à água, exercício pleno do direito de cultivar e consumir produtos não transgênicos, a lavouras sem veneno e com respeito à diversidade dos ecossistemas. As demandas implicam revisão de modelos econômicos de produção e de hábitos das pessoas.
O encontro mostrou que grande parte da sociedade está atenta, tem visão clara do impacto do agronegócio na qualidade de vida e na oferta de água, tida como alimento, e não apenas como recurso hídrico ou matéria-prima para as atividades agropecuárias e industriais. Entre os muitos ensinamentos e orientações à formulação de políticas públicas resultantes da conferência, vale destacar a recomendação dos povos tradicionais de matriz africana: “Para comer uma comida de verdade, é preciso conhecer a verdade sobre a comida”. (Artigo publicado na edição de hoje (9/11) do Correio Braziliense)
P.S. — A última frase do artigo, antes de ser inserida no manifesto, ela foi dita por Regina Nogueira, coordenadora nacional do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma).
 

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