Artigo: Mãe Baiana e a moral do terror

Casa de Mãe Baiana é incendiada. Bombeiros só encontram escombros. Polícia diz que vai investigar

Por Solon Dias

A intolerância, a arrogância, a verve destruidora de evangélicos politicamente mal formados, moralmente mal instruídos e culturalmente grudados aos interesses desprezíveis do estado, acabam de fazer mais uma vítima: o terreiro de Mãe Baiana, Casa de matriz africana consagrada no DF, foi incendiado na madrugada desta sexta-feira (27/11), no Núcleo Rural Córrego do Tamanduá, entre as regiões do Lago Norte e do Paranoá.

A Casa da Mãe Baiana, localizada aos fundos de uma chácara, foi destruída pelo fogo. As chamas tiveram início por volta das 5h.

Esse é o mais recente caso de ataque a terreiros na região do DF e Entorno. E apenas mais um entre a série de atentados que estes pseudo-religiosos seguidores dos malafaias e dos edis macedos da vida estão patrocinando.

Em setembro, ao menos outros dois templos de religiões afro-brasileiras em Goiás foram atacados: um em Santo Antônio do Descoberto em Águas Lindas de Goiás. Ambos foram incendiados, sendo que o primeiro já tinha sido alvo de outras ações.

O Estado brasileiro, pela série histórica de violência contra terreiros de candomblé, tem uma participação enorme nessas agressões.

Nunca, nenhum governo, inclusive o atual, deu ouvidos às demandas dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, do ponto de vista epistemológico.

A Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Presidência da República, por sua vez, teima em dialogar apenas com povos de terreiros para tratar de eventos e filigranas superficiais, esquecendo-se de que pesquisadores, intelectuais, artistas e formadores de opinião, sem contar com babalorixás e yalorixás de grandes conteúdos acadêmicos e de vida, cobram políticas consistentes, ainda que tardias, para tratar da questão de modo racional, respeitando os saberes desses povos tradicionais de matriz africana.
Esta não é uma questão de terreiro, apenas, ou de enfrentamento da violência de bandidos pretensiosos e ousados.

Esta é uma questão de segurança pública, que requer a construção de políticas públicas, para garantir direitos sociais consagrados na Constituição. No médio e longo prazos é isso que estamos cobrando do governo, da Justiça, da Polícia, do Ministério Público. Mas, na emergência do fulgor bestial contra Mãe Baiana ocorrido nesta madrugada, o que se exige é uma ação rápida na investigação e prisão desses picaretas que usam a Bíblia como arma letal desferida contra o diferente, o original.

 

O medo de perder o apoio das quadrilhas cristãs, não raramente travestidas de “bancadas evangélicas” instaladas nos “bunkers” legislativos, impõe ao governo essa timidez assassina, esse afago epistemológico danoso, maldito, cruel e medonho.

As três esferas de poder (governos federal, estaduais e municipais) não estão tratando da questão da segurança dos terreiros de forma adequada, proficiente e eficaz. Seus agentes oficiais, talvez movidos pelo camuflado “racismo institucional”, não estão dando a mínima para este drama, que não é religioso. É histórico. E tem tudo a ver com a herança amarga e conveniente da diáspora africana.

A Ouvidoria Nacional da Seppir, com todo o esfacelamento que o órgão sofreu após o desmonte ministerial tem que perder esse acanhamento criminoso, essa omissão impiedosa diante, justamente, de um povo notadamente batalhador e persistente.

 

Mãe Baiana tem minha solidariedade, meus respeitos e meus sentimentos por mais essa tragédia, que, do ponto de vista da estratégia despretensiosa dos nossos governantes, era mais que anunciada.

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